segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


Quaresma: O Caminho espiritual para a Páscoa
Rev. Edson Cortasio Sardinha
 

Introdução:
Na Quarta-feira de Cinzas iniciamos o período da Quaresma. Estamos entrando no Ciclo Pascal. Para entendermos a quaresma precisamos olhar para a conversão dos Ninivitas.
Jonas foi forçado por Deus a ir a Nínive pregar a palavra profética. Deus disse: “Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e proclama contra ela a mensagem que eu te digo”. Jonas percorreria a cidade em três dias. Jonas começou a percorre-la e dizia: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida”. Sua mensagem foi clara: Deus destruirá Nínive em quarenta dias. Resta apenas uma Quaresma para o povo de Nínive.
Os Ninivitas teriam apenas uma quaresma de vida. Eles creram em Deus, e proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor. O Rei de Ninive ficou sabendo da mensagem de Jonas. Foi tão impactado que se levantou do seu trono, tirou de si as vestes reais, cobriu-se de pano de saco, assentou-se sobre cinza e proclamou um jejum para todos os habitantes e animais de Nínive.
Mandou que todos fossem cobertos de pano de saco, clamassem fortemente a Deus e se convertessem de seus pecados. O rei esperava a misericórdia de Deus. Disse o rei: “Quem sabe se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?”
Deus se agradou do arrependimento e dos sinais da conversão. “Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez”. (Jn 3.1-10).
Jejum, pano de saco, cinzas, orações, clamor e conversão marcaram o arrependimento dos Ninivitas. Foi uma quaresma perfeita que os livrou da destruição eminente.



I. O simbolismo do número quarenta na Bíblia.
O número 40 (quarenta) indica um tempo necessário de preparação para algo novo que vai chegar. Observe a presença do número quarenta na Bíblia:
40 dias e quarenta noites do dilúvio (Gn 7.4-12).
40 dias e 40 noites passa Moisés no Monte (Ex 24.18; 34.26; Dt 9.9-11; 10.10);
40 anos foi o tempo da peregrinação pelo deserto (Nm 14.33; 32.13; Dt 8.2; 29.4, etc.).
40 dias de caminhada de Elias até o monte do Senhor (I Rs 19.8).
O Senhor Jesus jejuou 40 dias antes de começar o seu ministério (Mt 4,2; Mc 1,12; Lc 4,2);
A Ascensão de Jesus acontece 40 dias depois da Ressurreição (At 1,3).

II. A Quaresma como caminho para a Páscoa.
A quaresma é mencionada pela primeira vez no Concílio de Nicéia (325 d.C.).  Foi criada a partir de duas práticas da Igreja Primitiva: O longo jejum anterior à Páscoa (pratica judaica) e o período de preparação para o batismo.
Desde o II século o candidato ao batismo esperava três anos para ser batizado. O batismo ocorria uma vez ao ano, no dia da Páscoa. Na Sexta feira ele ia à igreja e colocava as roupas de neófitos. Ali ficava em jejum até o Domingo da ressurreição onde era batizado nu, em geral por derramamento.
O número quarenta foi determinado pela duração do jejum do Senhor Jesus no deserto. Para alguns líderes da igreja do passado, a quaresma terminava na Quinta-feira Santa e a contagem de 40 dias não contemplava os sábados e domingos.
A quaresma passou ser um caminho de oração, jejum e arrependimento como preparação para a devida celebração da Paixão e Ressurreição do Senhor.


III. A Quarta-feira de Cinzas
No século VII d.C. foram acrescentados quatro dias antes do primeiro domingo da Quaresma estabelecendo os quarenta dias de jejum, para imitar o jejum de Cristo no deserto. Assim a quaresma começava na quarta-feira de cinzas.
Era prática comum em Roma que os penitentes (arrependidos de seus pecados) começassem sua penitência pública no primeiro dia de Quaresma. Eles eram salpicados de cinzas, vestidos com sacos e obrigados a manter-se longe até que se reconciliassem com a Igreja na Quinta-feira Santa ou a Quinta-feira antes da Páscoa.
Quando estas práticas caíram em desuso (do século VIII ao X) o início do Tempo da Quaresma foi simbolizada colocando cinzas nas cabeças de toda a congregação.
Hoje em dia na Igreja católica, na Quarta-feira de Cinzas, o cristão recebe uma cruz na fronte com as cinzas obtidas da queima das palmas usadas no Domingo de Ramos do ano anterior.
Esta tradição católica ficou como um simples serviço em algumas Igrejas protestantes como a anglicana e a luterana. A Igreja Ortodoxa começa a quaresma desde a segunda-feira anterior e não celebra a Quarta-feira de Cinzas.
Para nós a quarta-feira de cinzas é o início da preparação para a Semana Santa e para a Páscoa.
As leituras da Quarta-feira de cinzas para os anos A,B e C são as mesmas: Jl 2:1-2, 12-17 ou Is 58:1-12; Sl 51:1-17; 2 Co 5:20b-6.10; Mt 6:1-6, 16-21.


IV. O Livro de Oração Comum, a Quarta-feira de Cinzas e o Primeiro Domingo da Quaresma
            Na coleta de Quarta-feira de cinzas a oração do Livro de Oração comum diz:
“Onipotente e Eterno Deus, que amas tudo quanto criaste, e que perdoas a todos os penitentes; cria em nós corações novos e contritos, para que, lamentando deveras os nossos pecados e confessando a nossa miséria, alcancemos de ti, Deus de suma piedade, perfeita remissão e perdão; por nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.

            A oração do Primeiro Domingo da Quaresma nos leva a refletir sobre a tentação do Senhor:
"Onipotente Deus, cujo bendito Filho foi conduzido pelo Espírito para ser tentado pelo demônio, apressa-te em socorrer a nós, que somos assaltados por muitas tentações, nós te rogamos. E, assim como conheces as fraquezas de cada um de nós, permite que cada qual encontre em ti o poder de salvação. Por Jesus Cristo teu Filho, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.
V. A Quaresma na Igreja Metodista.
O Colégio Episcopal na Carta Pastoral sobre o Culto na Igreja Metodista dá a seguinte orientação sobre a Quaresma:
“A Quaresma: Da Quarta-feira de cinzas ao Domingo de Ramos, este período enfatiza a importância da contrição, do preparo e da conversão. Inicia-se no 40° dia antes da Páscoa, sem contar os domingos. O início, na Quarta-feira de cinzas, retorna à tradição bíblica do arrependimento com cinzas e vestes de saco (Jn 3.5-6). É um momento oportuno para refletir sobre a confissão e o valor do perdão de Deus. Sua espiritualidade enfatiza momentos de preparo na história bíblica geral e da vida de Jesus: • Quarenta dias de Jesus no deserto (Mt 4.2; Lc 4.1ss) • Quarenta anos do povo no deserto (Ex 16.35) • Elias em direção ao Horeb (1Rs 19.8).
Cores da Quaresma: roxo ou lilás. Essas cores enfatizam a preparação, a expectativa, a saudade, a contrição e o arrependimento. (...)
Símbolos da Quaresma: • Cinzas, referindo-se ao arrependimento; • Ramos, lembrando a entrada triunfal; • Coroa de espinhos e os cravos, rememorando o sofrimento de Cristo”. (Carta Pastoral sobre o Culto na Igreja Metodista).

VI. A Quaresma no calendário Cristão.
Com a Quaresma tem início o Tempo Pascal. Estramos na celebração dos quatro períodos litúrgicos: Quaresma, Semana Santa, Páscoa e Pentecostes.
A Quaresma abre as portas para este período de vivencia do sacrifício, morte e ressurreição do Senhor. O Centro do calendário Cristão é a Páscoa e a quaresma é a preparação para este momento de oração e contrição.

VII. As Leituras do Primeiro Domingo da Quaresma
            A primeira leitura é Dt 26.4-10. Este texto fala do ritual de lembrança da Libertação do Senhor antes da oferta das primícias.  O povo lembrará que vivia em sofrimento e escravidão e que Deus o libertou com poderosa mão do Egito. Depois desta lembrança o povo adorará o Senhor com as primícias. Deus deve ser lembrado como o libertador. 
            O Salmo cantado é o 91.1-15. É o Salmo que apresenta o Senhor como o Libertador. Ele é o  esconderijo, o refúgio e o baluarte de confiança. O Salmo fala do livramento que vem do Senhor e aponta para o Messias que seria sustentado pelos anjos. Nesta relação de confiança o homem de Deus “invocará, e eu lhe responderei; na sua angústia eu estarei com ele, livrá-lo-ei e o glorificarei (15).
            A Epístola é Rm 10.8-13. A grande libertação está na Salvação que vem pelo nome do Senhor. A salvação está no nome do Senhor mediante seu sofrimento e ressurreição. Quem invocar o seu nome será salvo. Por isso que (9)   Se, com a tua boca, confessares Jesus como Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.
            O Evangelho é Lc 4.1-13. Lucas apresenta Jesus, cheio do Espírito Santo, voltando do Jordão e sendo guiado pelo Espírito ao deserto. Diante da tentação, Jesus é livre de toda cilada mediante a instrumentalidade da Palavra de Deus. A libertação está na Palavra. Este Evangelho fala da Quaresma de Jesus. Quarenta dias sem comer e sendo tentado pelo diabo. O diabo tenta hostilizar Jesus no alimento, na vã glória e na vã adoração. Em todo tempo Jesus caminha por sua quaresma dizendo “Está Escrito”. O Senhor vence a tentação, baseado unicamente na Palavra de Deus. A Palavra nos liberta.
            O tema do primeiro Domingo da Quaresma é a libertação que vem de Jesus. Passamos por aflições, sofrimentos e tentações, mas em Cristo alcançamos a libertação. Se Jesus nos libertar verdadeiramente seremos livres.  
 VIII. Como viver o período Quaresmal?
Os domingos: Os domingos da Quaresma são ricos. Os Evangelhos e os textos Bíblicos convidam para o arrependimento e nos preparam para o sacrifício do Senhor.
Lecionário: Leia as leituras Bíblicas de cada domingo que são apresentadas no final do Boletim, segundo o Lecionário Comum.
Jejum: Faça jejum uma vez por semana, de preferência na sexta-feira lembrando-se da morte do Senhor. Caso tenha dúvidas, por motivo de saúde, pergunte ao seu médico sobre a duração do jejum e o que não poderá se abster nestas horas.
Abstinência: Faça abstinência em oração e consagração de alguma coisa importante para você. (televisão, carne, refrigerante, etc.).
Oração: Coloque diante de Deus diariamente sua vida e família e clame por conversão e unção de Deus para que possamos viver verdadeiramente a justiça e a paz de Cristo no mundo.
Leituras de Espiritualidade: Procure leituras próprias para este período. Livros que falem sobre oração, jejum, conversão, perdão, etc.
Caridade: Não apenas na Quaresma, mas em todo o tempo, viva o jejum praticando a Caridade e o amor ao próximo.
Conversão: Todo tempo pensamos na necessidade de conversão. A Quaresma nos ajuda a aprofundar este exame pessoal e nos convida ao arrependimento e a volta para o Senhor.
Retiros Quaresmais: Participe de Retiros Quaresmais. Estaremos em Retiro todas as Sextas-feiras da Quaresma, das 7 horas da manhã às 7:40h.  

Conclusão:
A Quaresma foi a primeira campanha de oração da Igreja. Uma campanha de Oração de preparação para o Santo Batismo que ocorria sempre na vigília da Páscoa.
Que esta quaresma seja uma grande campanha de santidade e discipulado em nossa vida. Vamos nos preparar para o Domingo de Ramos, a Semana Santa e a ressurreição do Senhor.

Livros recomendados para Quaresma:
·         É Tempo de Quaresma – Editora Sinodal. Este livro-presente reflete o significado da Quaresma na vida das pessoas cristãs e apresenta propostas de exercícios quaresmais. 
·         Celebrar Páscoa em Família e Comunidade. Organização: Alfredo Jorge Hagsma, Vera Regina Waskow. Editora Sinodal.
·         Ele escolheu Você. Max Lucado. CPAD.
·         Ciclo da Páscoa (O) . Celebrando a redenção do Senhor Bruno Carneiro Lira (Org.) Editora Paulinas.
·         Convertei-vos e crede no evangelho.
Meditações para o tempo da Quaresma e Tríduo Pascal - Valter Maurício Goedert 
Editora Paulinas.
·         Páscoa (A) - Uma passagem para aquilo que não passa. Raniero Cantalamessa  Editora Paulinas.
·         Preparando a Páscoa - Quaresma, Tríduo Pascal, Tempo Pascal. Ione Buyst  Editora Paulinas.
·         Caminho pascal da Quaresma (O) .  José Humberto Motta  Editora Paulinas